O Estádio Leonardo Nogueira, principal praça esportiva de Mossoró, tornou-se um caso emblemático de gestão controversa, envolvendo abandono estrutural, promessas não cumpridas e uma complexa disputa judicial sobre sua propriedade e destino. No centro desse processo está a gestão do prefeito Allyson Bezerra.
Ao longo dos últimos anos, o estádio deixou de cumprir sua função esportiva e social, permanecendo fechado e em avançado estado de deterioração. Paralelamente, a gestão municipal sustentou discursos de recuperação e modernização que não se concretizaram, culminando na decisão de demolir a estrutura existente como solução definitiva.
Contudo, a demolição não ocorre em um cenário pacificado do ponto de vista jurídico. O destino do Nogueirão já era objeto de questionamento na Justiça, em ação que discute a legalidade da chamada “municipalização” do estádio, ou seja, a transferência de sua propriedade para o município. A ação tramita na Vara da Fazenda Pública de Mossoró e foi movida pela Liga Desportiva Mossoroense (LDM), que contesta a legalidade do processo.
Segundo a LDM, não houve autorização válida dos sócios para a transferência do estádio, e há indícios de irregularidades graves, incluindo suspeitas de falsificação de assinaturas em documentos utilizados no processo. Dirigentes afirmam, inclusive, que não participaram de assembleias nem autorizaram formalmente a municipalização. (nabocadanoite.com.br)
O próprio Judiciário reconheceu a fragilidade inicial das provas apresentadas no processo, classificando-as como genéricas e determinando que a prefeitura apresentasse documentação mais consistente para comprovar a legalidade da transferência. (nabocadanoite) Além disso, o cartório responsável pelos atos também foi intimado a se manifestar, ampliando o alcance da investigação. (nabocadanoite.com.br)
Em paralelo, há relatos de que documentos utilizados na municipalização podem ter origem questionável, incluindo a hipótese de reaproveitamento indevido de assinaturas oriundas de outros processos, o que reforça as suspeitas de fraude documental. (nabocadanoite.com.br)
Apesar desse cenário de insegurança jurídica, no qual sequer há definição definitiva sobre a titularidade do bem, a gestão municipal avançou com medidas administrativas relacionadas ao estádio. Entre elas, o envio de projeto de lei para viabilizar parcerias e a publicação de edital para construção de uma nova arena, mesmo com a propriedade ainda sendo discutida judicialmente. (nabocadanoite.com.br)
Na prática, isso significa que intervenções estruturais e decisões irreversíveis foram tomadas sobre um equipamento cuja posse ainda é alvo de litígio. Especialistas apontam que, em situações dessa natureza, medidas como demolição deveriam ser tratadas com cautela, sobretudo diante da possibilidade de reversão judicial da titularidade.
O resultado concreto desse processo é que o estádio está sendo demolido após anos de abandono, sem que houvesse, até o momento, a entrega de uma nova estrutura. A promessa de construção de um novo equipamento permanece sem cronograma claro ou garantias sólidas de execução.
O caso também teve repercussão política significativa. Diante da condução do processo e do desfecho do estádio, o prefeito passou a ser associado por parte da opinião pública ao colapso do Nogueirão, sendo rotulado como “coveiro do estádio” expressão que sintetiza a percepção de que o equipamento não foi recuperado, mas sim conduzido ao seu fim.
Com a saída de Allyson Bezerra do cargo, o impasse permanece. Mossoró segue sem seu principal estádio, e com um futuro terreno vazio, canteiro de obra, no lugar de um patrimônio histórico e um processo judicial em andamento que ainda pode redefinir responsabilidades e consequências.
O episódio do Nogueirão ultrapassa o campo esportivo. Trata-se de um caso que envolve gestão pública, segurança jurídica e responsabilidade administrativa. Ao final, o que se observa é a substituição de um equipamento consolidado por uma promessa futura, cercada por incertezas legais e questionamentos ainda não resolvidos.


