A “mágica” da fiscalização do Natal em Mossoró

A novela dos enfeites de Natal em Mossoró ganhou mais um capítulo — e a cada dia o escândalo se desdobra como fogo em mato seco. Depois de viralizar dentro e fora da cidade, novas informações continuam surgindo, expondo uma sequência de contradições, valores incompatíveis e tentativas frustradas de controle de danos.

Nesta semana, o vereador Cabo Deyvison fez uma live mostrando, na prática, o superfaturamento de itens utilizados na decoração natalina. Um produto que custa R$ 89 no comércio local foi adquirido pela prefeitura por R$ 640. E isso é apenas UM item.

Essa não é a primeira vez que a gestão Allyson Bezerra enfrenta denúncias de superfaturamento na Estação Natal. No primeiro mandato, casos semelhantes já haviam sido apontados pela oposição. Um exemplo: uma jardineira de R$ 25 teria sido comprada por R$ 235 — e, curiosamente, o caso também envolvia a decoração natalina.

Diante da repercussão do escândalo atual, a Prefeitura de Mossoró publicou, em 12/12/2025, uma nota assinada pela secretária de Administração, Luana Lima. A nota afirma que servidores estariam sendo “atacados”, que não há irregularidades e que o processo foi acompanhado rigorosamente. Diz também que houve economia de R$ 1,3 milhão e que o prefeito “não sabia de nada”.

Mas surgem algumas perguntas inevitáveis:

Quem atacou servidores? A nota não diz.
— Como o prefeito “não sabia de nada” se ele mesmo já declarou publicamente que fiscaliza pessoalmente as obras e acompanha tudo “do início ao fim”?
— Como acessar os tais documentos, se o Portal da Transparência está instável há meses e os dados simplesmente não aparecem?

A realidade é que, há cinco anos, a bancada governista nega sistematicamente requerimentos de informação. Documentos pedidos pelo ex vereador Tony Fernandes, Paulo Igo, Pablo Aires, Omar Nogueira e até pelo próprio Francisco Carlos, hoje integrante da base Allyson, foram todos bloqueados na legislatura passada.

Mas agora, com o escândalo explodindo em todas as redes, a base passou a “aprovar” requerimentos do dia para a noite. A tentativa de maquiar o histórico de bloqueios não convence: eles negaram enquanto puderam.

Na sessão mais recente, o vereador Jailson Nogueira protocolou um pedido para apurar a origem dos recursos que sustentam a máquina de propaganda e toda a estrutura ligada à primeira-dama, Cínthia Pinheiro. Envolvida em polêmicas e citada em diversas matérias e videos denúncias, ela é vista pela oposição como parte de um núcleo político paralelo dentro da gestão. Pela primeira vez, a base se sentiu pressionada o suficiente para aprovar um pedido desse tipo.

Perfis independentes também têm feito o trabalho que deveria ser facilitado pela transparência oficial. O jornalista Ronny Holanda, ex-integrante da equipe de comunicação da prefeitura, divulga semanalmente denúncias envolvendo a gestão. O morador Luiz Aires, do bairro Aeroporto, também expõe irregularidades frequentes — incluindo o caso da praça com “postes demais”, que virou piada nas redes até a prefeitura removê-los às pressas.

Outro perfil que tem registrado de forma contínua questões estruturais da cidade é o @KikoTemAV, que documenta desde praças abandonadas até obras polêmicas como o camelódromo e o Memorial da Covid, denunciando problemas, vícios, falhas e até inundações. Um acervo completo de situações que jamais apareceram nos canais oficiais.

O contraste é gritante: nas redes sociais, as informações estão acessíveis; nos portais oficiais, quase tudo está incompleto, fora do ar ou simplesmente não existe — contrariando a fala da secretária que afirmou que “tudo está nos canais oficiais”.

A verdadeira “mágica de Natal” em Mossoró não está na iluminação, mas na forma como as tentativas de esconder informações acabam revelando ainda mais o que estava por trás da cortina.