Os chamados “vereadores estaduais” de Mossoró

Os chamados “vereadores estaduais” de Mossoró — apelido dado pela própria população — formam a bancada do prefeito Allyson Bezerra e transformaram a Câmara Municipal de Mossoró em um palco de tudo, menos fiscalização. Com maioria folgada, eles aprovam qualquer medida do Executivo sem questionar, atuando como uma extensão automática da vontade do prefeito. A ironia é que se apresentam como guardiões da moralidade e paladinos da ética… mas apenas quando o assunto é o Governo do Estado. Dentro da própria cidade, o silêncio é estratégico.

Nesse cenário, virou rotina ver esses vereadores ocuparem o tempo das sessões para comentar temas estaduais, como se tivessem mandato na Assembleia Legislativa. É uma fuga conveniente: falando sobre o estado, evitam abordar escândalos locais, denúncias recorrentes e problemas que se acumulam nos bairros de Mossoró. Assim, mantêm o prefeito a salvo da cobrança que deveriam exercer.

O episódio envolvendo o vereador Wignis do Gás escancarou esse modus operandi. Ao romper com a base governista, ele admitiu que saiu por não querer apoiar à candidatura da esposa do prefeito. Em seguida, afirmou que pessoas ligadas a ele foram exoneradas vídeo — revelando, ainda que indiretamente, como funciona a engrenagem política da base aliada. Bastou aquela fala para a população ligar os pontos.

Hoje, o retrato mais nítido dos “vereadores estaduais” foi dado pelo vereador Raério Cabeção, que declarou na tribuna que não valia a pena comentar o escândalo dos enfeites de Natal. Um vereador municipal se recusando a tratar de um problema municipal é o resumo perfeito da desconexão. Para eles, parece mais importante falar de estradas distantes, problemas de outras regiões, ou do que “o estado fez ou deixou de fazer”. Mossoró, que deveriam fiscalizar, vira figurante.

Enquanto isso, a cidade enfrenta denúncias, obras mal explicadas, gastos milionários e um rastro de questionamentos. Mas a bancada governista insiste em desviar o foco: ora elogiando o prefeito, ora atacando o estado, ora criando cortinas de fumaça para evitar qualquer desgaste ao líder que defendem. A impressão que fica é que Mossoró se tornou tão “perfeita” que seus vereadores se transformaram, na prática, em deputados — guerreiros de uma batalha que não lhes pertence, enquanto a guerra real acontece a poucos metros da porta da Câmara.